XVII Domingo do Tempo Comum: Jo 6,1-15 - Eucaristia não é picnic!

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Pode parecer estranho que neste Domingo a liturgia nos apresente uma perícope do Evangelho de João, interrompendo assim a leitura de Marcos, o evangelho do Ano B que estamos seguindo. Porém, se considerarmos a leitura continuada de Marcos, a perícope seguinte à do domingo passado (Mc 6,30-34) trata justamente do mesmo tema: A multiplicação dos pães e dos peixes (Mc 6,35-44). Uma vez que o evangelho de João, na dinâmica do ciclo dominical trienal, não tem um ano próprio, não se pode perder a riqueza desse evangelho, por isso, a liturgia o insere em alguns momentos, sobretudo quando apresenta uma narração paralela ou complementar à temática do evangelho em voga. No caso presente, preferiu-se a narrativa joanina da multiplicação dos pães e dos peixes por causa dos seus aspectos mais desenvolvidos e de maior alcance simbólico e teológico. Ademais, Jo 6 é uma síntese do ministério de Jesus na Galileia; contém uma das mais altas revelações a respeito de Jesus. 
Destarte, interessa à comunidade cristã para o seu crescimento espiritual não apenas saber que Jesus multiplicou pães e peixes, ou mesmo que tenha realizado tantos outros milagres, mas é imprescindível saber qual o significado da sua missão e quem Ele é verdadeiramente, só assim poderá optar por segui-lo ou abandoná-lo, como acontece no final do capítulo 6 (v. 67).
Exceto o domingo da celebração da Assunção de Maria (que este ano tomou o lugar do 20º DTC), a liturgia dedica quatro domingos seguidos à leitura dos principais trechos de João 6 (XVIII – XIX – XXI). Por conseguinte, a narração da multiplicação dos pães e dos peixes torna-se ponto de partida para um grande discurso de revelação de Jesus. No esquema de João, esse é o quarto sinal (de um conjunto de 7), portanto está no centro, e, por isso, adquire uma importância ímpar. Na introdução da narração (6,1-4), encontramos já a sua chave de leitura: Jesus realiza o novo êxodo: “Atravessa o mar de Tiberíades... Uma multidão... Sobe a montanha... Estava próxima a páscoa dos judeus”. Com essas informações, João apresenta Jesus como o definitivo Moisés, que conduziu o povo através do mar, e subiu o Sinai para receber a Lei (cf. Ex 19,1s). Assim, também Jesus atravessa o mar e sobe a montanha.
Jesus, ao inaugurar o novo Êxodo, conduz aquela multidão, que obrigatoriamente deveria ir a Jerusalém para a celebração da Páscoa (cf. 2,13; 11,55; Lc 2,41), numa outra direção, a fim de libertá-la do jugo das instituições judaicas. Ao invés de Jerusalém, o povo é conduzido para a outra margem do mar da Galileia. 
No corpo da narração (6,5-13), o evangelista apresenta a multiplicação dos pães como símbolo e prefiguração do banquete pascal que no culto cristão é a Eucaristia. Diferentemente dos sinóticos que narram a instituição da Eucaristia no contexto da última ceia de Jesus, às vésperas da paixão, o IV evangelho antecipa o tema da Eucaristia para a primeira parte do seu escrito, a fim de desenvolvê-lo longamente no discurso do pão da vida. Isso lhe permitiu “omitir” a narração da instituição no seu contexto natural, mas, por outro lado, deu ênfase a um de seus fundamentais aspectos (o serviço) com a narração do lava-pés (Jo 13,1s). 
Os gestos de Jesus explicitamente descritos no sinal (6,11: tomar, dar graças, entregar) são indícios claros da intenção do evangelista de colocar a multiplicação dos pães em relação estreita com a Eucaristia.
Confrontando este versículo com as narrações da última ceia (Mc 14,22 e paralelos) encontramos o idêntico verbo “dar graças” (grego: eucharistein, agradecer), que na tradição antiga tinha já um claro significado eucarístico. Enquanto João sublinha que é Jesus quem toma os pães e dá aos presentes, nos sinóticos não é Jesus quem distribui o pão multiplicado, mas os discípulos. Esta formulação joanina sugere uma interpretação sacramental do sinal dos pães, porque aqui é o Mestre que distribui, como acontece nos sinóticos na ocasião da última ceia. Mesmo não nomeando o terceiro gesto eucarístico (partir, fracionar), a solene recomendação: “Recolhei os pedaços que sobraram” (grego: klasma, pão em pedaços) e a obediência à palavra: “Recolheram os pedaços...” evidenciam o gesto de “partir”, também fundamental para a Eucaristia.
Geralmente encontramos a tradução “recolhei”, porém o verbo grego é mais expressivo (sunago: ir junto, reunir), do ponto de vista simbólico é uma alusão clara à assembleia que se reúne para a Eucaristia, pois é o sacramento que dá a identidade da Igreja, expressando a sua unidade fundamentada na comunhão. 
A conclusão (6,14-15) corrige toda a tentação de ver na multiplicação dos pães e dos peixes uma surpreendente mágica ou mesmo uma ardilosa técnica de um líder habilidoso, que sabe dar dicas de como fazer um picnic onde só alguns levaram o alimento e todos precisam comer: “Quando notou que queriam fazê-lo rei, Jesus retirou-se de novo...”  O sinal não pode ser identificado como fruto de poderes mágicos e mirabolantes para garantir público de bajuladores e interesseiros, nem mesmo ser reduzido a um horizontalismo racionalista que esvazia o mistério e torna compreensível a ação do taumaturgo. A multiplicação dos pães é sinal, aponta para uma realidade ainda maior do que a resolução do problema da fome do pão material. Nos próximos Domingos o próprio Jesus nos conduzirá ao nível mais profundo do que Ele realizou multiplicando pães e peixes.



Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana