V Domingo da Quaresma: Jo 8,1-11 - A misericórdia transforma desespero em esperança!

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Neste V Domingo da Quaresma, praticamente entrando nos últimos dias de preparação para a Grande Semana, somos chamados a contemplar um dos episódios do evangelho de São João mais conhecidos, inclusive em âmbitos que ultrapassam os estudos bíblico-teológicos e litúrgicos, pois serviu de inspiração para canções populares e outras expressões da arte e da literatura.
Contudo, nos interessa a verdade da Palavra de Deus que nos alcança a partir dessa experiência relatada no evangelho de hoje. Santo Agostinho resumiu de forma esplêndida essa cena: “No fim ficaram apenas os dois: a miserável e a misericórdia”.
Jesus foi para o monte das Oliveiras”, este lugar tem um significado importante na trajetória de Jesus, pois era um lugar preferido de Jesus para a oração e o repouso; próximo a Jerusalém, de lá Jesus deu início a sua entrada triunfal na Cidade (Mt 21,1), como também, ao contemplar a Cidade Santa, lamentou a sua incredulidade e chorou por ela (Lc 19,37-41). Na proximidade de sua paixão e morte, o Senhor neste monte pronunciou o seu sermão escatológico (Mt 24-25; Marcos 13). E, por fim, na noite em que foi traído, Jesus foi orar no Monte das Oliveiras, num jardim chamado Getsêmani (Mt 26,30), onde na sua agonia suou sangue. São Lucas relata que na região de Betânia, sobre o Monte das Oliveiras, aconteceu a Ascensão de Jesus (Lc 12,50-53; Atos 1,9-12). Portanto, o Monte das Oliveiras é uma referência singular para alguns acontecimentos do evangelho, sobretudo no que diz respeito ao ensinamento de Jesus; no Monte das Oliveiras Jesus vivencia momentos de intensa intimidade com o Pai, discernindo a sua vontade e aprofundando a sua obediência e fidelidade à missão que recebeu.
Antes da madrugada, já se achava no Templo”: apesar de fazer duras críticas às manipulações e distorções do lugar sagrado, Jesus nunca deixou de frequentar o Templo e fez dele um lugar propício para o seu ensinamento, pois é a casa do seu Pai. No Templo, Jesus revelava o amor misericordioso do seu Pai, diferente dos escribas e doutores da Lei que, apropriando-se da cátedra de Moisés, se tornavam impiedosos juízes do povo, apoiados de forma fundamentalista na Lei, cujo principal objetivo era condenar: “Na Lei, Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres”.
Na verdade, a Lei mandava sentenciar tanto o homem quanto a mulher que cometessem adultério (cf. Lv 20,10; Dt 22,22). No entanto, os escribas e fariseus apresentam apenas a mulher surpreendida em adultério. Pela própria natureza objetiva desse delito, exige-se que os dois sejam apresentados. Mas Jesus desmascara a hipocrisia dos acusadores que se apresentam zelosos da Lei, mas na verdade estão transgredindo-a pois ocultam uma das partes: onde está o homem envolvido no ato?
Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe a pedra”. A Lei também dizia: “A mão das testemunhas será a primeira a fazê-lo morrer, e depois a mão de todo o povo” (Dt 17,7). Quem presenciou o pecado, torna-se testemunha e, portanto, tem autoridade para iniciar a execução. Mas no caso de adultério quem é, na verdade, testemunha senão quem o cometeu. Portanto, Jesus não está simplesmente defendendo a mulher, nem muito menos minimizando ou negando o seu pecado, mas está exigindo que se respeite a integridade da justiça. Se é para cumprir a Lei, então que se faça de modo justo: ambos têm que morrer.
Eles, porém, ouvindo isso, saíram um após outro, a começar pelos mais velhos”. Os anciãos em Israel tinham um papel importante de pessoas sábias e justas, exemplo para as gerações mais jovens; contudo, não conseguindo que Jesus cumprisse a Lei, ao modo deles, isto é, injustamente, são os primeiros a sair, confirmando assim serem eles injustos e descumpridores da Lei, pois não fizeram mais do que distorcê-la a fim de condenar a mulher.
Erguendo-se, Jesus lhe disse: ‘Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” Ao levantar-se, Jesus começa um movimento de erguer também a mulher, pois até então, ela não tinha dito nada, nem mesmo uma palavra para defender-se das acusações, um pedido de ajuda para que alguém a socorresse. Sem voz, parecia já sem esperança e aguardava o pior. Porém, a voz dos seus acusadores foi calada pela verdade da Palavra de Jesus: “Quem não tiver pecado”. No mesmo capítulo, em seguida, Jesus fará a grande proclamação: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (8,32). Portanto, a verdade é que todos têm pecado, mas também é verdade que “O Senhor não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva” (Ez 18,23). 
A verdade da mulher pecadora se encontra com a verdade do amor misericordioso de Deus manifestado no seu Filho: “Deus amou tanto o mundo que enviou o seu Filho ao mundo para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,16). Os escribas acusadores conheciam a gravidade do pecado, mas não reconheciam a grandiosidade da misericórdia, por isso se afastaram, foram embora um após outro. Também eles poderiam ter feito a experiência do amor que perdoa se fossem capazes de reconhecer o próprio erro de ter acusado de forma injusta, por ser parcial, aquela mulher que não adulterou sozinha. Mas preferiram se afastar da verdade e do amor, permanecer com o coração endurecido e continuar a adulterar a Lei de Deus. A acusação tendenciosa do adultério da mulher sozinha não era outra coisa senão a projeção do próprio adultério da Lei que eles cometiam.
Nem eu te condeno”: diante do delito há duas possibilidades: perdoar ou condenar. Jesus não nega o pecado, mas perdoa a pecadora. O tribunal da misericórdia de Deus é o único onde culpados recebem o perdão.
Vai em paz, e de agora em diante não peques mais”:  a verdade liberta, mas também recupera a paz e fortalece o compromisso de não mais perdê-la.  A esperança verdadeira do pecador não é que o seu pecado seja negado, mas que seja perdoado. Não se pode fazer a experiência do perdão se não se reconhece o pecado.



Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana