Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Há poucos dias iniciamos o Ano Santo, o Jubileu da Esperança. Na ocasião realizou-se o rito da memória do Batismo para nos recordar que a nossa vida cristã começa com o batismo, pois é a graça que nos torna filhos e filhas de Deus (Jo 1,12.13), expressão do seu amor ao enviar o seu Filho ao mundo para nos salvar (Jo 3,16). Na Bula de proclamação do Ano Santo (Spes non confundit), o Papa Francisco nos apresenta esse itinerário de vida, como peregrinos de esperança, que inicia com o Batismo: “Com efeito, a esperança nasce do amor e funda-se no amor que brota do Coração de Jesus trespassado na cruz: ‘Se de fato, quando éramos inimigos de Deus, fomos reconciliados com Ele pela morte de seu Filho, com muito mais razão, uma vez reconciliados, havemos de ser salvos pela sua vida’ (Rm 5,10). E a sua vida manifesta-se na nossa vida de fé, que começa com o Batismo, desenvolve-se na docilidade à graça de Deus e é por isso animada pela esperança, sempre renovada e tornada inabalável pela ação do Espírito Santo” (n. 3). Portanto, a Festa do Batismo do Senhor, neste Ano Jubilar, ajuda-nos a aprofundar ainda mais o significado desse sacramento, considerado a porta da fé (cf. At 14,27). E seguindo a perspectiva didático-pedagógica da liturgia, a Festa de hoje conclui o ciclo epifânico do Natal e torna-se a porta de entrada para o Tempo Comum, tempo propício para aprofundarmos as consequências do batismo na nossa vida de discípulos de Jesus, o Messias, o Filho de Deus.No discurso de Pedro (2ª Leitura), encontramos a síntese perfeita da vida e missão de Jesus, a começar pelo batismo até a sua morte e ressurreição: “Jesus, ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder, andou por toda parte fazendo o bem... Porque Deus estava com ele” (At 10,38). O batismo nos faz mergulhar na morte e ressurreição de Cristo a fim de nos configurarmos a Ele, assumindo a sua missão. Portanto, a marca fundamental da peregrinação do cristão (andar por toda parte) é fazer o bem (realizar a obra de Deus: o anúncio do evangelho e a prática da caridade). A narração do batismo de Jesus, segundo Lucas, apresenta três elementos que não estão nos textos paralelos (Mt-Mc): a não explícita presença de João Batista, Jesus em oração e o Espírito Santo em forma corpórea. O batismo de Jesus não o lava de nenhuma culpa (João Batista pregava um batismo de conversão para a remissão dos pecados: 3,3; omitindo que João batizou Jesus, Lucas distingue ambos ministérios. Com o fim do ministério do Batista, termina o período da promessa, o tempo da espera. Com o batismo de Jesus e a descida do Espírito Santo sobre Ele, começa o tempo da realização). Por conseguinte, o batismo de Jesus é momento solene de se fazer a proclamação de que Ele é o Filho amado do Pai que, mesmo não sendo pecador, aproxima-se ao máximo dos pecadores, está no meio deles (Lc 15,1s). Outro elemento é a oração: Jesus estava orando, experiência que está presente nos momentos importantes do seu ministério (5,16; 6,12; 9,18.28; 11,1; 22,32.41;23,46), pois testemunha a sua íntima comunhão com o Pai. Por fim, temos o Espírito Santo que desce em forma corpórea (de pomba) indicando assim a realidade concreta, palpável da efusão do Espírito como o será no Pentecostes na comunidade primitiva (At 2,3). O simbolismo da pomba, a partir do Cântico dos Cânticos (2,14; 5,2;6,7), representa a comunidade fiel, amada por Deus e missionária. Ademais, esse símbolo nos remete à primeira criação (Gn 1,2) e agora no evangelho indica o novo início, a definitiva criação no Filho amado do Pai. Um elemento comum às narrações do batismo é a abertura do céu (grego: aneochthevai tov ouranon, ser aberto o céu) realizando assim o pedido da profecia do Antigo Testamento: “Oxalá que fendesses o céu e descesses” (Is 63,19). Um refrão que nos acompanhou durante todo o tempo do Advento. O Batismo de Jesus representa essa nova realidade, o céu aberto significa o restabelecimento da aliança com Deus; reabre-se o caminho de volta à comunhão com o Pai, muitas vezes quebrado pela infidelidade do seu povo. São Lucas, diferentemente dos outros evangelistas, enfatiza que todo o povo era batizado, isto indica a universalidade do batismo; portanto, a salvação ultrapassa as fronteiras de Israel. Por isso no texto seguinte (a Genealogia: 3,23-38), Jesus é apresentado como descendente de Adão, filho de Deus, isto é, Ele é o Salvador da humanidade e não apenas do povo judeu. Ao encarnar-se, iniciando o seu batismo, Jesus mergulhou na totalidade humanidade e não apenas numa parte dela. Assumindo a condição humana, Jesus derrubou todas as muralhas etnocentristas e hegemônicas, inaugurando assim a fraternidade universal. Celebrar a Festa do Batismo do Senhor não é apenas recordar esse fato histórico que marcou a vida pública de Jesus, mas é fazer memória também do grande acontecimento que marcou a nossa história como filhos adotivos de Deus. O batismo que recebemos não é apenas um rito para nos introduzir numa comunidade, mas uma graça que nos coloca a caminho, faz-nos peregrinos movidos pela esperança fundamentada na fé. Uma esperança que não decepciona pois já é penhor da vida futura. Não peregrinamos para alcançar algo que desejamos, mas peregrinamos porque já fomos alcançados, na esperança, pelo grande dom da salvação recebido no batismo.
Dom André Vital Félix da Silva, SCJBispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CEMestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana